melodrama



 Não quero que isto seja uma confissão triste, não quero que tenham pena de mim. Nada disso me parece bem.
 Sei que fiquei assim por culpa minha, fui eu que criei o meu pesadelo. Se não fosse tão teimosa e tão insistente, não tinha chegado a este ponto. Não tinha passado o que passei. Diz-se que quem faz a sua cama, deita-se nela, ou qualquer coisa parecida.
 Foi um ano e dois meses de sofrimento, de altos e baixos. Mais baixos que altos. Sim, tive momentos óptimos, mas também cheguei ao ponto de pensar em coisas que nunca me tinham vindo à cabeça.
 Sei que há coisas que nunca deveriam ter acontecido, sinto que nunca me deveria ter afastado. Mas há coisas que não conseguia suportar. Devia ter estado mais presente nos bons e nos maus momentos. Simplesmente não aguentava, ver que não podia fazer aquilo que me faz melhor, aquilo ao que dediquei a maior parte da minha vida, metade da minha vida foi passada ali, com uma bola de basquetebol na mão. Mesmo quando não jogava, fui crescendo com ela e aprender a tocar-lhe.
 Ainda me lembro do primeiro treino, de cada detalhe… de cada sensação, da música que ia a passar na rádio no momento em que ia a caminho do pavilhão. “Walking Away” do Craig David. O nervosismo e entusiasmo preenchiam-me.
 Com isto, vieram amizades, foram outras. Nove anos da minha vida foram vividos assim, nem sei se este ano conta, não joguei, sei que não é bom pensar assim. Mas sinto que não estive presente o suficiente, muitas vezes porque não podia mesmo, mas isso não é desculpa nenhuma. Gostava de ter participado em todas as vitórias, até nas derrotas. Só para sentir que faço parte.
 Fui ficando cada vez mais ausente, só porque há coisas com que não estou habituada a encarar directamente. Durante todo este tempo ainda não me conformei, e até sou uma pessoa que se acomoda bastante. Desta vez não foi assim, nem nada que se pareça. Lembro-me de todas as vezes que fiquei triste por não ter ido à selecção, todas as vezes que chorei por ter perdido, por sentir uma frustração enorme. Desta vez foi muito pior, preferia mil vezes os outros motivos, preferia mil vezes sentir-me frustrada por ter jogado mal, do que por não poder sequer jogar. Sentia-me de fora, por vezes sinto que não pertenço ali. Sei que não é assim, eu faço tanto parte da equipa como a maioria, só que há uma diferença, eu não pude ajudar da maneira que gostava.
 Ninguém tem noção da quantidade absurda de saudades que tenho de entrar em campo. Ou melhor, alguém que tenha passado pelo mesmo, tenha. E saber que isto foi tudo culpa minha, deixa-me louca.
 Se calhar estou a ser demasiado melodramática. Fingir que estava feliz, começava a ser demasiado cansativo e desgastante, enquanto a única coisa que eu queria era gritar tanto, mas tanto.
 Por fim, acabei com este pesadelo. Sim, fui operada há meses, durante os primeiros dias, senti que preferia não ter sido, tal eram as dores. Ainda está enferrujado, não fazia os movimentos que eu quero, e cada movimento exagerado era como um castigo. Acho que não me importo, foi a parte que mais esperei. Apesar de todas as dores, acho que finalmente tenho descanso. Já não preciso de lutar mais. Estava a tornar-se desgastante. Digo-te, tantas foram as vezes que pensei desistir.
 Agora já voltei a entrar, cada segundo de treino, de jogo é como uma pequena vitória interior. Cada lançamento convertido transforma a minha boca num enorme sorriso. Já tinha tantas saudades.
 
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